Rio Verde/GO: Cotonicultores buscam saída para crescer em um cenário cheio de obstáculos

Mudanças climáticas, produtividade, preparação do solo, rentabilidade, mercado, sustentabilidade. Esses foram os termos mais discutidos no Simpósio Goiano do Algodão, realizado na última quinta-feira, dia 6, em Rio Verde. O encontro reuniu produtores, engenheiros agrônomos, biólogos, técnicos e estudantes da região Sudoeste do estado. O objetivo foi apresentar a situação econômica e climática pela qual passa a cotonicultura. O combate às principais pragas que afetam a produção cotonicultora também teve espaço garantido.
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Economista-chefe do Rabobank Brasil, Maurício Oreng comandou a palestra “Perspectivas Macroeconômicas para o Brasil”, com um panorama da situação atual da economia brasileira e as previsões para o futuro. “A economia brasileira tem uma grande necessidade de promover as reformas estruturais, especialmente na parte fiscal, para poder voltar a crescer”, afirma. 
 
Para o economista, o processo de ajuste nos juros nos Estados Unidos (‎e talvez nas condições monetárias em outros países avançados) aumenta o desafio à frente. Todavia, Maurício vê um cenário construtivo à frente, dado que o setor financeiro acredita na aprovação de reformas que irão, com o tempo, equilibrar as tendências fiscais. “Vemos uma recuperação gradual da economia à frente, além de uma queda estrutural na taxa de juros. Para a taxa de câmbio, antevemos um dólar bem comportado nos próximos anos, apesar de uma provável depreciação em função do aumento do juro americano”, pontua.
 
Bicudo: a maior praga do algodão
 
O Bicudo é a maior praga do algodão. Surgiu em 1983 e causou um deslocamento da produção no Brasil. A afirmação é de Wanderley Oishi, da Quality Cotton Consultoria. Para ele, “é preciso começar uma safra com a menor população da praga, e isso se dá com o controle da soqueira e outras medidas preliminares”. Oishi afirma ainda que Goiás é pioneiro no Programa de Manejo de Bicudo para 2017. “Hoje, tentamos trazer o produtor para entender que o controle da praga só funciona com envolvimento e participação de todos: produtores, Agrodefesa e Fundação Goiás”, enumera.
 
“O sucesso do programa começa agora na entressafra, com a destruição das soqueiras e aplicações logo quando o bicudo aparecer na lavoura. Quanto mais postergarmos sua entrada na lavoura, melhor”, diz Oishi. Para o consultor, quando a praga chega na lavoura e começa a se alimentar, em 4 ou 5 dias ela começa a se reproduzir. Desta forma, é necessário aplicar o defensivo no máximo a cada 5 dias, para evitar a reprodução do bicudo. Por isso, é importante retardar a entrada do bicudo na plantação. 
 
Conforme apresentou o consultor, a média goiana é de 16 aplicações de defensivos. O objetivo é reduzir esse número em 30% na próxima safra. “Há fazendas em que chegamos a reduzir em até 70% as aplicações. Aí podemos pensar em sustentabilidade. O foco tem que ser total no manejo, do contrário só restará o aumento de aplicações, um modelo insustentável”, alerta. 
 
Para o pesquisador da Embrapa, Fábio Aquino de Albuquerque, é preciso repensar o que está sendo feito, visto que há anos se combate o bicudo e não se consegue controlá-lo. Já o produtor José Eduardo de Macedo, da Fazenda Capuaba (MT), defende o manejo integrado de culturas. Ele expôs exemplos da Fazenda Capuaba da variação das plantações, o que gerou diminuição de pragas e aumento de produtividade.
 
A rotação e variação de culturas, diz manteve uma quantidade boa de nutrientes no solo, reduziu custos com adubação, fertilizantes e herbicidas, aumentou a sustentabilidade, biodiversidade e biomassa. Houve aumento da matéria orgânica, a estrutura física do solo melhorou e diminuíram os problemas com estiagem devido à maior capacidade do solo em reter água.
 
“Se tivéssemos prestado atenção na agricultura sustentável nos anos 70 e 80, teríamos mudado a realidade da agricultura no Centro-Oeste”, concluiu.
 
Mudanças climáticas: uma realidade
 
Marcia Thaís é pesquisadora da Embrapa. Sua apresentação no painel sobre mudanças climáticas mostrou que a concentração de dióxido de carbono está diretamente ligada ao aumento da temperatura. “Se as emissões globais continuarem aumentando, a temperatura invariavelmente vai aumentar”, simplificou. Conforme estudos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, em inglês), os fatores determinantes são o aumento da população; economia; inovação; fontes de energia e a agricultura. As variações de cada um desses aspectos podem agravar ou diminuir as mudanças climáticas. 
 
O impacto das temperaturas mais altas sobre a cultura do algodão pode reduzir a área agricultável de 4.1 milhões de km2 para 3.8 milhões de km2. No Brasil, aponta, a agricultura corresponde por 34% das emissões de dióxido de carbono. O Cerrado contribui com 62% dessas emissões. “Mesmo com forte diminuição a partir de 2009, as queimadas e desmatamento no Brasil são emissões de gases de efeito estufa (GEE) que tiveram grande participação das emissões totais brasileiras”, alerta. 
 
Outro pesquisador da Embrapa, Alexandre Bryan apresentou dados de 52 estações de medição de chuvas. O estudo não apresentou tendência na redução da precipitação pluvial, porém, supõe-se que a distribuição da precipitação mude devido aos fenômenos climáticos (La Niña: maior número de dias com precipitação. El Niño: maior número de dias sem precipitação).
 
Outra mudança climática é a tendência de haver mais picos de calor acima de 36 graus. Na última década, os picos de calor aumentaram principalmente em outubro. Em Santo Antônio de Goiás, a temperatura mínima subiu 2 graus. “Se a mudança climática for mais rápida que a adaptação da planta, a produtividade cai”, ressalta.
 
Eduardo Kawakami, da Fundação MT, diz que o grande problema hídrico do algodão é a distribuição das chuvas. O estresse hídrico mediano afeta a fotossíntese e agrava o fechamento do estômato da flor. “A falta de água dificulta para o algodão florear e aumenta as raízes para buscar mais água”, informa.
 
Conforme a temperatura máxima aumenta na época do florescimento, a produtividade diminui. “Acima de 35 graus, a fotossíntese do algodão despenca, e diminui a polinização, entre outras consequências”, esclarece. 
 
O Simpósio Goiano do Algodão é realizado pela Associação Goiana dos Produtores de Algodão (Agopa) e pela Embrapa, com apoio do Instituto Brasileiro do Algodão (IBA), Fundação de Incentivo à Cultura do Algodão em Goiás (Fialgo) e Fundação Goiás.
 
Simpósio aprofunda o debate do Dia do Algodão
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Desenvolvemos um ambiente mais propício ao aprendizado e aprofundamos os debates que realizamos durante o Dia do Algodão”. É o que explica o presidente da Associação Goiana dos Produtores de Algodão, Luiz Renato Zapparoli, destacando que o foco deste ano é a  sustentabilidade ambiental e social. Para o presidente da Agopa, a crise chegou, o crédito diminuiu e o dólar subiu. Mesmo com esse cenário pouco otimista, a previsão é que o setor recupere fôlego em uma ou duas safras. “Vamos entrar em um período melhor”, prevê.
 
“É na crise que buscamos alternativas”
 
O algodão é uma espécie sensível que pode gerar altos ganhos ou grandes prejuízos ao produtor, daí a importância de um bom manejo. A afirmação é do presidente do Instituto Brasileiro do Algodão, Haroldo cunha, durante o Simpósio Goiano do Algodão 2016. Para Haroldo, são importantes os cuidados dentro do sistema sustentável de produção para reduzir custos. “É na crise que buscamos alternativas”, resume. 
 
“O clima está mudando a cada ano”
 

Apresentador do painel “Desafios para Sistemas Produtivos Sustentáveis”, André Luiz Silva diz que o grande desafio é buscar alternativas para aumentar a rentabilidade, que vem caindo com o aumento dos custos de produção. “Nossa expectativa é que o clima seja mais favorável neste ano”.

Por Brenno Sarques

Jornalista

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